Sugestões de Leitura > Língua Árabe


LÍNGUA FRANCA

Ao contrário do que houve no Ocidente, continua havendo uma língua franca para a comunicação entre os Estados de população árabe. Também são ligados pelo árabe como língua litúrgica os milhões de muçulmanos ao redor do mundo. O Alcorão não pode ser traduzido, e o estudo do árabe formal torna-se, assim, um imperativo religioso.
"O Alcorão teve uma grande influência na língua árabe", opina o jovem saudita Muhammad Hassan Alwan, autor de "The Beaver", uma das obras que concorreram ao Arabic Booker Prize, competição pan-árabica lançada em 2007. "Esse livro sagrado manteve a língua por 14 séculos de maneira que pode ser facilmente entendida hoje."

Apesar dos mitos sobre sua inacessibilidade, o árabe padrão ainda é compreendido nas ruas. Foi com essa variante que um grupo de crianças me cercou, em Rabat, para perguntar se eu era muçulmano. Quando disse que não, uma gritou, as mãos na cabecinha indignada: "La! La tarif al-nar?" ("Não! Você não conhece o fogo?")

Um estudioso do idioma que não segue o islã e não é nem sequer de origem árabe se vê, por vezes, obrigado a justificar seus estudos. É possível argumentar que o interesse vem do prazer histórico. Mantida estática pelas exigências da religião, a língua ainda é próxima do dialeto urbano falado em Meca no século 7º. Falar árabe é como conversar com beduínos -o falante ideal, segundo a tradição.

O árabe é parente não só do hebraico mas também das demais línguas semíticas, como o acadiano, o aramaico e o fenício. Quem diz "salam", em árabe, de certa forma está dizendo "shalam" (acadiano), "shlam" (aramaico) e "shalom" (hebraico).

O termo "semita" vem de Sem -na Bíblia, um dos filhos de Noé. Emprestado da linguística, foi compreendido politicamente como designação étnica. Em sua origem, era a reunião de um grupo específico das línguas afro-asiáticas, como o hebraico e o árabe, parentes distantes do egípcio antigo.

Para falantes de línguas latinas ou germânicas, ambas indo-europeias, aprender um idioma semítico envolve adaptar-se a um modo de pensar. O árabe não tem verbos "ser", "estar" e "ter". A existência é presumida (de "eu Diogo" se entende "eu sou Diogo"). O estado, também ("eu doente"). Para a posse, se diz "para mim, um carro".

"Línguas orientais exigem muita dedicação", diz Mamede Mustafa Jarouche. Tradutor do "Livro das Mil e Uma Noites", Jarouche ensina gramática árabe na USP. "Com línguas como o inglês, é possível haver aprendizado passivo. Um aluno pode aprender sem nunca ter ido aos Estados Unidos. Isso não ocorre com o árabe."

A forma da escrita, com alfabeto próprio, correndo da direita para a esquerda na página, é outro aspecto a levantar curiosidade em torno de um estudante de árabe. Quando foi estabilizada, em cerca de 1.000 a.C., a escrita fenícia -origem dos sistemas do árabe, do aramaico e do hebraico- seguia esse sentido. Os gregos, ao se apropriarem da invenção semítica num momento posterior, mudaram-lhe o rumo.

LEITURA

Pouco se fala, porém, da real dificuldade da leitura em árabe. Para os acadêmicos mais rigorosos com a classificação, a escrita do árabe não é de fato "alfabética", apesar de "alfa" e "beta" serem ironicamente palavras emprestadas do fenício pelos gregos. O árabe é escrito por meio de um "abjad" -uma escrita consonantal.

O árabe (como o hebraico, o siríaco e o nabateu) não registra todos os sons que são falados. Boa parte de suas vogais é subentendida. Assim, escreve-se "ktb" para dizer "kataba", ou "ele escreveu". O que pode levar a problemas, uma vez que "ktb" também pode ser lido "kutub", "livros". Ou "kutiba", "foi escrito".

(A hstór de Abu al-Aswd nos lembr de que os árbs stveram, desd o níci do slmism, prcpads com a mntnção do text crânc. Tref inglóri par um livr sgrad scrit sem dverss de sus vgais.1)
Daí entram os diacríticos, marcações feitas sobre ou sob as letras para indicar vogais ocultas. Os sistemas de diacríticos são, de certa maneira, uma invenção siríaca motivada pelas traduções da Bíblia e pela necessidade de grafar com exatidão os nomes gregos registrados durante a Antiguidade.

A atual vedete do ensino do árabe é um método didático chamado "Al-Kitaab fi Ta'alum al-Arabiya", organizado por professores americanos. É usado em Chicago e em Harvard, e também na USP e na escola Qalam wa Lawh, onde estudei no Marrocos.

É, porém, um livro controverso. Em 2008, um editorial do "Washington Post" expressava preocupação quanto ao método. O quarto capítulo do manual mostra a personagem Maha, antipática filha de uma professora palestina, dizendo a frase que se tornou clássica entre estudantes (no meu caso, rendeu a ideia para um rap, escrito para um trabalho da USP): "Ana la uhibu madinat Niw Yurk", "Não gosto da cidade de NY". Os motivos? Trânsito e calor. De onde vinha Maha? Do Cairo, a quente e caótica capital do Egito.

Apesar do estranhamento que o livro possa ter causado, é exagerada a alegação de que o método do "Kitaab" forme terroristas. Mas é pertinente a observação de acadêmicos, como o espanhol Corriente, que se opõem às tentativas de ensinar o árabe padrão por diálogos.

O árabe formal não é uma língua falada. As situações de comunicação são em geral pouco naturais, como discursos na ONU -o idioma é uma das seis línguas oficiais das Nações Unidas, ao lado do inglês, do chinês, do francês, do russo e do espanhol. Experimente pedir uma cerveja em árabe formal a um garçom no Marrocos: ele vai olhar para você como se estivesse diante de um personagem de um filme.

O estudante de árabe nunca está em paz, entre a "fusha" ("a eloquente", como se chama a variante formal) e a "amia" ("a popular", os dialetos). Se estuda o padrão, lhe perguntam por que não quis o dialeto -afinal, é a língua das ruas. Caso estude o vernacular, lhe perguntam por que não escolheu o formal -ora, é a língua dos livros!

O ideal, opina o espanhol Corriente, é "um conhecimento equilibrado da realidade linguística árabe, abarcando tanto a habilidade de ao menos ler a língua clássica quanto falar um dialeto". Mas isso esbarra, diz, na realidade de que o ensino do árabe "é catastroficamente terrível, por falta de métodos, de definição de objetivos e de preparação pedagógica".

A predominância da "fusha" como única variante escrita, porém, parece estar caindo. Os livros dizem ser impossível registrar os dialetos, porque têm sons sem equivalente na escrita. Mas, na estação de ônibus de Rabat, um outdoor anuncia: "kein" desconto -"kein" é o equivalente dialetal marroquino para o formal "hunaka", "há".

A Wikipedia também aposta em um futuro menos rígido para as línguas árabes. Alguns verbetes, como o referente a Cleópatra, têm versões em "egípcio". "Egípcio", como vem sendo chamado na enciclopédia colaborativa o dialeto cairota, era o termo que designava, até há pouco, a língua escrita com hieróglifos, no tempo dos faraós.


Fonte: Trecho retirado da edição de 18/08/2013 do jornal A Folha de São Paulo. Se interessar, leia o artigo na íntegra clicando aqui
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