Terras Indígenas Canadenses


Índios canadenses negociam com companhias chinesas

Não é de hoje que povos indígenas do Canadá permitem que mineradoras explorem suas terras em troca de compensações financeiras, empregos ou investimentos em infraestrutura em suas comunidades. Mas recentemente, eles começaram a negociar com um grupo que até então pouco conheciam: os chineses.

Executivos e representantes de mineradoras chinesas têm visitado tribos - muitas delas em pontos remotos do Canadá - para discutir possíveis acordos comerciais envolvendo a exploração do subsolo. "Chineses têm se aproximado de várias comunidades para discutir o acesso aos recursos naturais ou formas pelas quais eles podem participar da exploração do subsolo. O objetivo deles é obter recursos naturais", disse ontem ao Valor, Mark Podlasly, membro do povo Nlaka'pamux, na Colúmbia Britânica, Canadá. Formado em Harvard, Podlasly (ou Tása Kwatcha, seu nome tradicional), comanda uma consultoria indígena, a Brookmere Management Group, dedicada a negócios entre comunidades locais e empresas de mineração e energia.

Segundo ele, a convite dos chineses, líderes indígenas também têm viajado a China em "missões comerciais" para tratar das condições de possíveis acordos.

Desde os anos 70, povos indígenas canadenses negociam com mineradoras, empresas de linhas de transmissão, de dutos, ferrovias e outras cujos negócios requerem amplas áreas de terras. São em geral empresas canadenes, americanas ou europeias. A Vale também está lá e mantém acordos com duas comunidades indígenas na costa leste, diz Podlasly. Hoje existem cerca de 150 acordos entre empresas e índios canadenses. A população indígena canadenses é de cerca de 700.000, 2% da população total.

"Os chineses começaram a chegar talvez há uns cinco anos", disse Podlasly, que foi um dos palestrantes de ontem de um evento sobre mineração, "The Mining Company of the Future", promovido pela Kellogg Innovation Network e pela Fundação Dom Cabral, em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo ele, a presença chinesa em tribos indígenas não tem sido motivo para polêmicas no Canadá. "As pessoas não veem isso como uma ameaça. É uma transação comercial."

Podlasly diz não saber se algum acordo entre líderes indígenas e os chineses já foi firmado. Em geral, essas combinações são cercadas de sigilo. O fato, diz ele, é que as conversas e os contatos têm sido constantes.

Ao contrário do Brasil, onde a mineração é proibida em terras indígenas, no Canadá a atividade é permitida, embora nem tudo seja muito claro. Em alguns lugares, indígenas detêm direitos sobre os recursos minerais e para esses é mais fácil fechar acordos com empresas. Em outros, há dúvidas sobre a real autonomia deles.

Os acordos firmados com empresas costumam envolver garantia de empregos, simples proteção ao meio ambiente, a contratação de empresas de prestação de serviços que indígenas venha a ter, construção de redes de água encanada, de redes de telecomunições, investimentos em educação. Em muitos casos há também pagamento, diz Podlasly. E nos últimos anos acordos envolvendo a transferência de um lote de ações para os indígenas.

"Os resultados desses acordos variam", diz ele. Há casos bem reputados, como o da Vale, diz ele, e outros que acabam em tensão.

Parta Podlasly, o interesse de companhias chinesas em áreas pouco habitadas do Canadá é só um sintoma de um movimento mundial. "Tem sido cada vez mais difícil para as mineradoras encontrarem recursos porque as reservas que eram mais fáceis de serem alcançados já foram esgotadas. Elas estão tendo de explorar no fundo do oceano, ir mais fundo no subsolo, mais ao norte do planeta, avançando em áreas que ainda não foram exploradas e isso em muitos casos afeta populações indígenas", diz ele.

Fonte: Valor

Nosso Debate: Explorar terras indígenas no Canadá pode. No Brasil não pode.
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