Perdidos no Atlântico

   
Volta ao mundo num monomotor

Conheceram-se no Brasil e resolveram dar a volta ao mundo num pequeno avião. Margi Moss e Gérard optaram por começar por África aquele que seria o vôo das suas vidas. Apesar das dificuldades o Romeo, nome com que baptizaram o avião, conseguiu levar os dois aventureiros até ao seu destino, as terras distantes e exóticas com que sonharam.

Livre decolagem... As palavras do controlador ressoam pela cabine apertada. Significam: “É isso aí, meus amigos. Não era o que queriam fazer? O que estão esperando? Vão em frente!” Enquanto Gérard, o meu marido, aumenta a rotação do motor, as luzes da pista tremeluzem hipnoticamente, unindo-se em algum ponto do infinito além da ilha de Fernando de Noronha, a quase 355 quilómetros da costa brasileira. São 2h35, hora local, e partimos em direcção a África, do outro lado do Oceano Atlântico. Gérard tenta disfarçar os seus temores. Estamos prestes a dar início à viagem das nossas vidas, para terras distantes e exóticas espalhadas por todo o globo terrestre. Isto é, se conseguirmos chegar ao outro lado. A nossa expressão é de alegria, mas a palmadinha tranquilizadora que ele dá na minha mão não consegue desfazer o nó no meu estômago. A rota mais curta do Brasil a África segue a direcção nor-nordeste até ao arquipélago de Cabo Verde. Calculamos 11 horas de vôo até ao nosso destino: Ilha do Sal, em Cabo Verde, a mais de 2.400 quilómetros de distância, do outro lado do oceano. Assim que levantamos vôo, o espectáculo é magnífico: um aveludado tapete oceânico manchado pelo amarelo luminoso da lua. Mas quando ela se põe, lá fora estende-se a mais profunda escuridão. Aqui dentro, o cálido brilho esverdeado do painel de instrumentos faz –me sentir como se estivéssemos afivelados no interior de um foguete lançado ao espaço. Pelo menos o motor está a roncar normalmente. Ou assim me parece. Consternada, observo Gérard curvar-se diversas vezes para olhar de modo obsessivo um dos indicadores. – Alguma coisa errada? – Detesto fazer esta pergunta, temendo a resposta. – Não, está tudo bem – responde ele, um pouco impaciente. Reconheço-lhe o tom: ele está preocupado. – Então porque continua a olhar dessa maneira para os instrumentos? – Bem, a temperatura do óleo está mais alta do que o normal. Talvez me tenha esquecido de um trapo no radiador do óleo quando verifiquei o motor antes de descolarmos.

Inclino o corpo para o lado dele. O ponteiro está quase no vermelho. Porquê logo agora e logo neste vôo, uma travessia nocturna do Atlântico Sul?

O vôo de nossas vidas

Vindos de países diferentes, os nossos caminhos cruzaram-se pela primeira vez na encantadora estância de Búzios, próximo do Rio de Janeiro. Depressa descobri que Gérard vivia torturado por uma voz interior, que lhe dizia: “A vida tem mais a oferecer do que fatos de riscas e objectivos de vendas. Há um mundo imenso e fascinante à tua espera.” Mas será que esse mundo ainda estaria lá, depois de cumprirmos pena num escritório? Gérard já passara um ano vivendo num iate, perto de San Diego, e já fizera o trajecto de ida e volta do Pacífico ao Hawai. A vida sobre as ondas, tentou ele convencer-me, era um permanente estado de graça, livre de inquietações. Fui criada em Nairobi, no Quénia, muito bem ancorada em terra firme. O meu conceito d iatismo é de uma eterna batalha contra ventos, ondas, piratas e baleias assassinas. A afirmação de que velejar era uma boa forma de se ver o mundo parecia-me absurda. – Então por que não vamos de avião? – sugeriu Gérard um dia, em contrapartida. Achei que estivesse a falar de uma volta ao mundo a bordo de um Jumbo. Mas não estava. Na época, ele tinha um monomotor de quatro lugares no qual voávamos por aí nos fins de semana. Chegámos até a ir às Caraíbas nele. Mas uma volta ao mundo? Respondi “sim, amor” àquele entusiasmo todo e, ao mesmo tempo, rezei para que ele esmorecesse. A nossa sala de estar foi atapetada com mapas do mundo todo. Gérard passava horas calculando distâncias e consumos de combustível. Quando me descuidei, trocou o modelo de avião de quatro lugares por um maior e eu comprendi que não havia saída. Agora, meses depois, aqui estou eu esquadrinhando o oceano à procura do indício de uma embarcação. E não encontro nenhum. Como a aeronave está sobrecarregada pelo peso do combustível, subimos lenta e dolorosamente, um mísero pé de cada vez. Para trás, ficaram as alegres luzes da ilha, abandonando-nos num céu negro, sobre um mar negro. É solitário, aterrorizante e um bocado louco.

Tentando controlar o tremor da voz, pergunto: - Não seria melhor voltarmos antes que seja tarde demais? É abominável a idéia de desistir tão cedo. Estamos apenas a começar. Mas, presa ao assento, anseio pela terra firme que acabámos de deixar. Quando caminhávamos para o aeroporto à meia-noite, com a serenata dos sapos coaxando em coro no pântano, a vida parecera eterna, indestrutível. – Estamos apenas a 5 mil pés, mas vou nivelar para melhorar o fluxo de ar – diz Gérard. – Talvez isso diminua a temperatura do óleo. Vamos esperar cinco minutos. Lembre-se de que estamos muito pesados. A sua mente de engenheiro dá voltas. Tem de haver uma explicação lógica para o problema. O nosso aviãozinho, baptizado Romeo, é um Sertanejo – monomotor de asa baixa fabricado no Brasil. Para atravessar o Atlântico Sul, Gérard instalou dois tanques de combustível sobressalentes atrás dos assentos. O combustível adicional aumentou nossa autonomia para 2 mil milhas, mas é extremamente pesado.

Antes da partida, ele fizera uma inspecção cuidadosa do motor, apertando porcas e parafusos, e verificando todos os cabos e fios de segurança. O tanque de óleo foi completado até à capacidade máxima. Assim, ver o indicador de temperatura do óleo no vermelho é mau sinal. Seria uma fuga? Sem lubrificação, o motor não durará nem 15 minutos, e já estamos a uma hora de Fernando de Noronha. Nivelada a aeronave, a temperatura do óleo estabiliza, um pouco mais alta do que o normal. Ainda temos 1.250 milhas à frente. Olho de relance para o pequenino bote salva-vidas de dois lugares, desejando voltar enquanto ainda estamos relativamente próximos do Brasil, em vez de insistirmos e – Deus nos livre – acabarmos à deriva no meio do Atlântico. Mas Gérard não vai desistir tão facilmente. Afinal de contas, o motor tinha funcionado perfeitamente no vôo de Recife para Fernando de Noronha.

Perdidos sobre o oceano

Enquanto avançamos sobre um Atlântico invisível, cada qual angustiado por seus próprios temores ocultos, Gérard pragueja de vez em quando, culpando-se por algum esquecimento. Como poucas aeronaves despressurizadas atravessam o Atlântico Sul, os serviços de meteorologia não preparam cartas de ventos para vôos abaixo de 18 mil pés. A meros 5 mil pés, só Deus sabe que ventos sopram. Gérard supõe que 5 graus leste seja uma correcção apropriada para compensar o fator de vento desconhecido, e mantém o curso. Duas horas depois, com a temperatura do óleo estável, conseguimos subir a 7 mil pés. A navegação está limitada a uma bússola e a um navegador por satélite da Magnavox (SatNav), ancestral primitivo do hoje comum GPS – Sistema de Posicionamento Global. Projectado para barcos que se deslocam lentamente, o SatNav é menos eficiente quando adaptado a aeronaves leves. Recebendo dados de uns poucos satélites, numa situação ideal ele deveria apontar as nossas coordenadas geográficas com precisão a cada duas horas, permitindo-nos corrigir a rota. No entanto, o SatNav rejeita a primeira posição dada pelo satélite. Para nós, é um golpe sério, pois dependemos desse dispositivo para fazer uma travessia segura. Pensando bem, foi tolice não trazer um sextante. Um erro de três graus no início do vôo afastar-nos-ia desastrosamente do nosso destino depois de 11 horas. Já bem distantes, sobre o oceano vasto e deserto, vemo-nos sem meios de determinar a nossa posição exacta. Três horas após a descolagem, pinceladas cor-de-rosa delineiam o horizonte. A luz do dia renova ilusoriamente a nossa confiança, pois apenas torna visível o oceano. Menos pesados, tendo queimado já muitos litros de combustível, subimos até 9 mil pés, a altitude previamente fixada. A temperatura do óleo está normal e o motor zumbe num tom agradável. Por fim Gérard consegue relaxar.

A luz do sol invade a cabine, tornando-a aconchegante. Mastigar biscoitos ruidosamente, em uníssono, ajuda-nos a esquecer por algum tempo “o lado de fora”, o “lá em baixo”, e fingimos ser um casal normal tomando o pequeno almoço.

Às 09:00 TMG, temos um encontro radiofónico com André, um radioamador de Fernando de Noronha que concordou em servir-nos de companhia sobre as águas. É um contacto encorajador com um mundo distante. Gérard dá-lhe a estimativa da nossa posição, baseada em cálculos aproximados. Hugo, irmão de Gérard, irá ligar para André pedindo notícias. Evitámos dizer aos nossos pais o dia da travessia, para lhes poupar uma noite maldormida. Do nosso ponto remoto sobre o Atlântico Sul, o mundo deles parece-nos irreal.

Estamo-nos aproximando da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), célebre pelo mau tempo. Cúmulos-nimbos ameaçadores unem forças ao nosso redor, cravando raios no mar. Ziguezagueamos através das formações mais amenas, enquanto a chuva açoita o pára-brisas e a forte turbulência golpeia a nossa frágil aeronave. Presos naquela concha de alumínio, à mercê das forças da natureza, sinto varrer-me outra onda de pânico.

Pressionado pelas minhas perguntas hesitantes, Gérard – impassível, confiante, tranqüilo – admite que a ZCIT pode cobrir uma latitude de aproximadamente 5 graus. Trezentas milhas ou mais de duas horas de vôo! Não há nada a fazer senão apertar os cintos e fazer o possível para manter os biscoitos no estômago.

O vento aumentou de intensidade e desvia-nos claramente do rumo. Mas quanto? Se o SatNav funcionasse, saberíamos com exactidão. Lançamos mão da adivinhação. Juntos, concordamos em aumentar o factor de correcção de 5 para 10 graus leste. Seis horas e vinte minutos após a decolagem, os tanques internos estão vazios. O consumo de combustível é a única medição tangível do nosso progresso. Há muito que perdemos contacto com o Controle de Recife e já não conseguimos ouvir André. Não faz mal, por esta altura já cobrimos mais de metade do caminho. Os tanques das asas dão-nos outras oito horas de combustível e calculamos a aterragem para daqui a apenas quatro horas. Isso permite-nos descontrair um pouco, apesar do angustiante mau tempo. Quando a leitura seguinte do satélite também falha, os meus medos tímidos voltam a florescer. É bem possível que passemos pelas ilhas de Cabo Verde e acabemos num túmulo aquático. Calo as minhas inquietações diante da animação de Gérard. Deixamos o mau tempo para trás; estamos em plena luz do sol.

O indicador da temperatura externa dá-nos a leitura de 12º C. Nada mau para 9 mil pés! A visibilidade vertical está boa: um mar calmo e azul cintila agora abaixo de nós. Apesar do céu sem nuvens, no entanto, uma intrigante neblina espessa e amarela prejudica a visibilidade horizontal. Estaria a África em chamas?

Um estranho sinal

Depois de nove horas no ar, deveríamos estar a duas horas da aterragem. No entanto, não conseguimos contacto-rádio com a torre da Ilha do Sal, nem estamos a receber sinais do radiofarol de Cabo Verde. O ponteiro do Localizador Automático de Direcção oscila de um lado para o outro, tornando impossível determinar se a ilha se encontra à esquerda ou à direita.

O mundo voltou-nos as costas. A cabine enche-se mais uma vez de tensão. Conversar sobre trivialidades não ajuda, e fechamo-nos de novo. Por fim, uma voz crepitante surge mais alta do que a estática do rádio. É o Controle da Ilha do Sal! Nem sinal de terra, por enquanto, mas a alegria invade-nos e une-nos outra vez. O controlador dispara as perguntas regulamentares sobre a nossa posição, como se fôssemos o décimo monomotor a chegar do Brasil durante o seu turno. Gérard avisa que, mantendo-nos a 9 mil pés, estamos a uma hora da aterragem. Até aqui, usámos uma carta náutica em grande escala, que abrange os dois lados do Atlântico. Agora, tiro de sob o assento uma carta aeronáutica das ilhas, mais detalhada. Mostra que, se de facto estamos a uma hora de Sal, deveríamos estar a sobrevoar a Ilha de Santiago. Mas não há sinal de terra lá embaixo. Será que, por causa da névoa densa, passámos por ela sem dar por isso? De repente, recebemos um sinal forte do radiofarol da Ilha de Santiago, à nossa frente. Então, ainda não a passámos. Continuamos longe, no oceano. Mais tarde, o ponteiro mergulha para a direita. Mas esperem lá: pelos nossos cálculos, a ilha deveria estar à esquerda! Então, estranhamente, o sinal que recebíamos de Sal desaparece. O que é isto? Onde estamos? Perplexa, estudo a carta. – Ei, Gérard, olhe lá! Uma das ilhas, a Ilha do Fogo, é um vulcão de 2.829 metros... É inacreditável! Surge no meio do oceano. Podemos até chocar contra ele! Sinto um nó no estômago. – Como é que é? Deixe-me ver. – Gérard agarra o mapa. – Ah, não se preocupe! Está a 80 quilómetros de nossa rota, a oeste. – Mas não temos a menor idéia de onde estamos! – respondo, mal-humorada. – Estamos perdidos, não dá para ver quase nada do lado de fora e há uma montanha nas redondezas 90 metros acima de nós. – Esqueça essa porcaria da montanha! – explode Gérard. – Esses sinais erráticos do radiofarol são mais preocupantes. Não dá para entender. Estamos a ser vencidos pelo cansaço físico e pela tensão. Fico amuada do meu lado da cabine enquanto ele se curva sobre o rádio. Tento fazer o que ele disse, esquecer a porcaria da montanha. Mas não consigo. A minha mente visualiza um aviãozinho sobrevoando um vasto oceano, seguindo directamente contra um imenso vulcão escondido no meio da neblina. Assim, empoleirada desajeitadamente na beira do assento, estico o pescoço para conseguir a melhor visão possível do mar que se estende diante de nós. Na verdade, sinto-me um bocado ridícula, mas Gérard está tão entretido com os instrumentos, sem sequer olhar pela janela, que me parece o mais sensato a fazer. A tensão a bordo é tangível, mas prosseguimos por mais algum tempo em silêncio. Por pouco

Um reflexo branco chama a minha atenção. – Olhe! Aquilo ali à frente não são ondas a rebentar nas rochas? Ou estou a sonhar? Algumas ondas lá em baixo têm de facto um comportamento diferente. A espuma branca revela a forma indistinta e recortada de uma costa, a pouca distância. Enquanto seguimos naquela direcção, deixamos de lado o mau humor e abraçamo-nos, exultantes. – Graças a Deus! Enfim, terra à vista! Eu disse que íamos conseguir! – Gérard sente-se duplamente aliviado. Além de estar a pilotar o avião, sente o peso da responsabilidade de levar a mulher em segurança até ao outro lado do oceano.

Como ainda é impossível divisar o formato exacto da ilha adiante, imaginamos que seja Santiago. Gérard aumenta a velocidade e lançamo-nos em sua direcção, ávidos pelo conforto de ter terra firme outra vez sob as asas. De súbito, porém, aquele contorno indistinto transforma-se de maneira alarmante. A imensa encosta da montanha surge abruptamente à nossa frente, emergindo da densa neblina. Bem a tempo, Gérard dá uma guinada e o cone perfeito de um vulcão passa rente à minha janela.

A nossa alegria momentânea em avistar terra foi brutalmente substituída pela dura realidade de quase chocarmos contra ela. Em todos os finais desastrosos que imaginei para esta travessia, não previ a colisão frontal com um vulcão. É incrível que após 11 horas de vôo sobre o oceano nos víssemos em rota de colisão com esse imponente pico. Com uma das mãos o destino puxou-nos para cá e, com a outra, empurrou-nos para longe do perigo mesmo a tempo. Agora já não estamos perdidos: a quase-colisão revelou a nossa posição exacta. Os ventos deviam estar muito fortes durante o último trecho da viagem para nos ter afastado 96 quilómetros do nosso rumo. Quando, uma hora mais tarde, finalmente avistamos a simples faixa azul que é a pista de pouso da Ilha do Sal, estendida sobre a pálida areia desértica, sem uma única árvore à vista, ela parece-nos o paraíso.

– PAPA-TANGO-ROMEO-XRAY-ECHO, no solo às 16h34 – soa a voz mecânica do controlador de Sal, alheio às horas de tensão que antecederam a nossa aterragem. Enfim pisamos o asfalto da pista, as pernas bambas mas felizes. Logo notamos que o avião está inteiramente coberto por uma fina poeira amarela: areia do Saara, carregada centenas de quilómetros sobre o Atlântico pelos ventos Harmattan. Era ela a responsável pela densa neblina na qual passámos horas voando às cegas. Enfim, um táxi preto e amolgado transporta-nos rapidamente pela paisagem lunar até ao arruinado vilarejo de Santa Maria. No hotel, telefonamos para Hugo, que está muito animado. Já soubera por intermédio de André que havíamos aterrado em segurança. É claro que ele não faz a menor idéia das inquietações e dos temores que nos atormentaram durante grande parte da viagem. Tão pouco sabe que, não fosse uma guinada brusca no momento certo, a nossa viagem teria encontrado um fim prematuro nas negras encostas de um vulcão, surgido inesperadamente do fundo do oceano. Contar-lhe-emos essa história noutra ocasião. Agora, é hora de amenizar a tensão nervosa do corpo com um banho relaxante e regozijarmo-nos com um facto: conseguimos!

RD de Janeiro
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