Os EUA Têm Que Reconhecer o Nosso Papel...





BRASÍLIA - O subsecretário de Segurança Internacional e Não Proliferação dos Estados Unidos, Thomas Countryman, esteve na semana passada em Brasília para conversar com o governo brasileiro sobre ações conjuntas no controle de armas químicas, biológicas e nucleares. No entanto, a tentativa do Irã de desenvolver armas nucleares acabou como tema central da visita. Apesar das constantes críticas à relação amistosa que o País desenvolveu com os iranianos, agora Washington crê que essa relação pode ser útil. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Estado: O Brasil foi muito criticado por Washington pela relação amistosa que construiu com o Irã. O sr. acredita que agora uma condenação ao Irã pelo Brasil terá mais peso?

Thomas Countryman: Sim. O Brasil tem influência e acredito que por isso o Irã tentou construir uma relação mais positiva. Mas o Brasil também tem princípios e tem sido consistente em defendê-los. Se o Irã excedeu qualquer possibilidade de uso pacífico da energia nuclear, eu acredito que o governo brasileiro será coerente com seus princípios. E também acredito que isso terá sim uma influência e um peso para o Irã.


Estado: Por quê? O que mudou?

Thomas Countryman: Eu não estou certo de que alguma coisa realmente mudou, apenas o tempo passou. Decisões que o Irã tomou este ano para buscar o enriquecimento de urânio a 20%, apesar de não ter uma necessidade pacífica para um estoque desse nível, mudaram o quadro. Eu acredito que isso altere a disposição até de países como o Brasil, que querem ajudar o Irã. Mesmo esses não podem estar tão dispostos a aceitar as versões iranianas.

Estado: Após a tentativa frustrada de acordo, novas sanções foram aprovadas, mas não pararam o Irã. Aonde se vai agora?

Thomas Countryman: Continuamos a buscar a maior unidade possível na comunidade internacional, tanto nas pressões diplomáticas quanto nas econômicas, mantendo alguns princípios: não queremos uma ação que resulte em intervenção militar; não aceitamos um resultado em que o Irã obtenha armas nucleares em condições de uso - até porque temos boas razões para acreditar que eles poderiam usá-las efetivamente - e não queremos uma ação militar por parte de mais ninguém. Se mantivermos a pressão é possível fazer com que o Irã mude seus planos.

Estado: Israel já fala em ataques, mesmo antes de uma nova tentativa de negociação...

Thomas Countryman: Eu não posso falar pelos israelenses. Eu posso dizer é que o Irã é o único país no mundo que fala publicamente e repetidamente que outro país deve ser exterminado. E busca hoje uma arma nuclear, o que lhe permitiria cumprir a ameaça. Isso me preocupa mais do que o que os israelenses dizem. Acho que está nas mãos da comunidade internacional alcançar um meio não violento de terminar o programa nuclear do Irã. Se não tivermos essa coragem e se não permanecermos unidos, então, sim, uma nação ou outra vai agir com violência na região.

Fonte: O Estado de São Paulo - 21 Nov 2012

Nosso Debate: Agora os EUA estão buscando apoio do Brasil? Quem te viu, quem te vê. Lembram-se quando o Brasil disse na Cúpula de Segurança da ONU que "a política existe para tentar conversar, convencer"? Em abril, países do Bric, como Rússia e China, que não apoiavam boicotes contra o Irã, acabaram, por causa da pressão do Mister Obama, por concordar com as novas sanções. O Brasil sempre apoiou o diálogo como forma de encontrar uma solução para evitar o pior e não deixar que o leão persa despertasse. Como disse o próprio Ahmadinejad "as sanções contra meu país são patéticas e saibam que há um leão adormecido no Irã, que está despertando e, ao despertar, as relações no mundo mudarão."
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