História > Os Piratas Que Almoçavam no Brasil



Corsários que faziam escala no Brasil em busca de comida adoravam as receitas locais.

Eles saíam de casa, do velho continente europeu, rumo aos desconhecidos mares do sul, com um apetite voraz por aventura e seus navios abarrotados de comida e água, que teoricamente deveriam durar até a próxima parada. Mas as coisas nem sempre transcorriam como o esperado. Tempestades, calmarias, incêndios e encontros nada amistosos com inimigos destruíam parte do estoque. O calor infernal dos trópicos se encarregava de fazer apodrecer o resto, o que provocava uma horripilante proliferação de vermes e doenças. Os corsários e piratas ingleses chegavam ao Brasil quase sempre famintos, depauperados, doentes e desesperados por água fresca e comida.

Muitas vezes o objetivo das frotas não era o Brasil, e sim destinos mais distantes no Oceano Pacífico: as costas da América espanhola com suas ricas embarcações abarrotadas de ouro e prata; e as rotas do oriente, onde também havia galeões carregados de tesouros. O Brasil era uma espécie de escala, quase obrigatória, antes da difícil e perigosa travessia do Estreito de Magalhães.

A tarefa de achar um bom porto para ancorar e abastecer os navios com água e mantimentos não era das mais fáceis. Alguns felizardos encontravam belos rios de água potável e eram bem recebidos por índios ou colonos amistosos, que lhes forneciam frutas, raízes comestíveis e animais. Outros eram rapidamente expulsos da terra por tribos de canibais, precisando ir de ilha em ilha em busca de alimentos.

Tudo se tornou mais difícil depois de 1580. Naquele ano, Portugal foi anexado à coroa espanhola, e Felipe II, rei da Espanha, que estava em guerra com a Inglaterra, passou a ser também soberano do Brasil. A situação piorou ainda mais em 1588 quando a junta governativa composta por Antônio Barreiros, Cristóvão de Barros e Antônio Coelho de Aguiar criou medidas para defender o país contra o ataque de corsários, proibindo navios estrangeiros de frequentarem as costas brasileiras, com exceção daqueles que apresentassem uma Provisão Real (documento fornecido pela coroa portuguesa). Suas ordens eram muito claras: estava proibido comercializar com qualquer embarcação inglesa em território brasileiro. Mas nem todos os ingleses estavam a par dessas ordens e, quase sempre, movidos pelo desespero da fome e da doença, tentavam a sorte em nossos portos.

Quando ainda contavam com homens em condições de lutar, alguns navegadores atacavam e saqueavam vilas no litoral brasileiro, onde se fartavam com frutas nativas, peixes, carnes, e com derivados da mandioca, como a farinha e os beijus (massa feita de farinha de tapioca). Os alimentos eram disputados avidamente, como aconteceu com a tripulação do corsário Thomas Cavendish (1560-1592), em 1592, que pretendia, pela segunda vez, dar a volta ao mundo. Na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, os homens de Cavendish, desesperados de fome, saquearam as casas da região, angariando batatas, bananas, raízes, além de porcos e galinhas. “Naquele lugar, não consegui comida nem dinheiro, de modo que, levado pela pura fome, me meti na floresta para tentar caçar alguma coisa. Enquanto seguíamos, topamos com sete ou oito homens de nosso grupo que se aglomeravam ao redor de um porco que haviam matado e brigavam para ver quem ficaria com a melhor parte. Chegamos bem no momento em que começavam a se socar, e assim roubamos um pedaço da caça e corremos para dentro da floresta” conta um dos membros da expedição, Anthony Knivet, em seu livro de memórias. Já os músicos de Cavendish tiveram mais sorte: caçaram oito gambás, que comeram assados, acompanhados de raízes da terra, provavelmente carás e aipins. Uma deliciosa refeição brasileira. Quando abandonaram a Ilha Grande, os então bem alimentados e restabelecidos ingleses incendiaram todas as casas e retomaram seu rumo.

A parada seguinte foi no Porto de Santos. Na noite de Natal, os ingleses atacaram e se apossaram do povoado. Em Santos, os ingleses se fartaram de comida. “Na vila havia um bom estoque de alimentos, doces cristalizados, açúcar e farinha de mandioca, com a qual fizemos ótimo pão, e trezentas cabeças de gado, que nos alimentaram todo o tempo em que lá estivemos”, conta Anthony Knivet. Confortavelmente instalados no mosteiro dos jesuítas e com alimentos em abundância, os piratas ficaram por dois meses, o que provocou o fracasso da viagem, pois acabaram perdendo a temporada correta para fazer a travessia do Estreito de Magalhães. No estreito, enfrentando frio extremo e fortes tempestades, quase toda a tripulação sucumbiu, e o explorador foi forçado a voltar para a Inglaterra. Sem a farinha de mandioca, os pães, os doces e as carnes de Santos talvez a história de Cavendish tivesse tido um desfecho diferente. O conhecido bon vivant talvez tenha sido derrotado pela barriga.

O pirata cortesão Richard Hawkins (1562-1622) teve mais sorte. Homem extremamente educado e gentil, ele pensava, acima de tudo, no bem-estar e na saúde de seus homens, ao contrário de Cavendish, que abandonava os doentes em praias desertas e desabitadas. Em 1593, com o objetivo de chegar à China e ao Japão, via Estreito de Magalhães, precisou fazer uma escala em Santos. Sua tripulação estava doente, enfraquecida pelo escorbuto, e incapaz de empreender qualquer tipo de ataque. Hawkins decidiu, então, negociar pacificamente com a população local. Escreveu uma elegante carta, propondo trocas comerciais, e pediu que um capitão a entregasse. O emissário inglês foi muito bem recebido pelos oficiais de Santos e pela população.

Conseguiu que a frota recebesse 300 laranjas e limões – fundamentais para combater o escorbuto (causado pela falta de vitamina C no organismo). “Quando os mantimentos subiram a bordo de nossos navios, uma grande alegria tomou posse da tripulação, e muitos recuperaram a saúde apenas ao avistar as laranjas e limões. Trata-se de um maravilhoso segredo do poder e sabedoria de Deus, que escondeu tão grandes e desconhecidas virtudes nessas frutas, para serem tão certo remédio para essa enfermidade”, relata Hawkins.

As autoridades de Santos enviaram a carta ao governador da capitania, Lopo de Souza, mas a resposta não foi a esperada. O governador se disse pesaroso por não poder atender a tão justo pedido. Afirmou que recebera ordem do rei para não negociar com os ingleses, e estabeleceu um prazo de três dias para Hawkins abandonar o porto. Salientou, ainda, que estava sendo generoso em consideração aos modos aristocráticos do capitão.

Diante disso, os ingleses seguiram em direção ao sul, onde encontraram algumas ilhas (talvez o Arquipélago de Alcatraz, a 45 quilômetros do Porto de São Sebastião, também em São Paulo). Toda a tripulação desembarcou, incluindo três médicos, para completar o restabelecimento da saúde da tripulação. Ao escrever sobre essas ilhas, Hawkins, um excelente observador da natureza, tornou-se o primeiro cronista a descrever a brasileiríssima pitanga: “uma espécie de cereja, de cor vermelha, com um caroço, não totalmente redonda, mas em gomos, e com um sabor extremamente agradável”. Maravilhou-se também com a exótica aparência de outra fruta: “de gosto muito prazeroso, com a forma de uma alcachofra, toda rodeada de espinhos”. Tratava-se do abacaxi. “Uma das melhores frutas que comi nas Índias”, conta Hawkins.

Mas o mais exótico alimento que saborearam foi uma espécie de sopa, cuja receita foi criada pelos médicos ingleses, com o objetivo de fortalecer a tripulação. Naquela época, a alimentação era parte fundamental na cura, e havia receitas especiais para cada tipo de doença. “Nessas ilhas encontramos grande quantidade de pequenos alcatrazes (aves das costas atlântica e pacífica da América do Sul) em seus ninhos, que reservamos para os doentes, e que fervidos com porco em conserva, e engrossados com farinha de aveia, resultaram numa sopa muito substancial”, relata Hawkins. O poderoso caldo preparou a tripulação para enfrentar a difícil e perigosa travessia do Estreito de Magalhães. Nessas ilhas, acharam também grande quantidade de uma erva riquíssima em vitamina C e indicada especialmente para combater o escorbuto: a beldroega.

No caminho para o Estreito de Magalhães encontraram um navio negreiro português, que seguia para a África. Os corsários perseguiram a embarcação, que rapidamente se rendeu. Os ingleses desarmaram o navio e se apoderaram de seu carregamento. “A nau estava abarrotada de farinha de cassave, que os portugueses chama de farinha de pau, feita de uma raiz muito parecida com batata”, explica Hawkins. Os portugueses trocariam esse precioso carregamento por escravos em Angola. Mas nas mãos dos ingleses a farinha de mandioca teve outro destino. Com o ingrediente, os homens de Hawkins fizeram deliciosas panquecas, que fritavam em manteiga, óleo, ou banha de porco, e depois polvilhavam com um pouco de açúcar. O exótico manjar passou a ser a comida preferida pela tripulação. Os corsários ingleses, quem diria, fartaram-se de beijus, um acepipe inventado pelos índios brasileiros.

Hawkins também se rendeu ao fascínio do cauim, uma bebida indígena feita a partir da mandioca macerada. E observou que os melhores eram aqueles “mastigados por uma velha”, contrariando outros cronistas que diziam que o bom cauim era feito a partir da mandioca mastigada por jovens ou virgens. Hawkins era um conhecedor. Registra três diferentes maneiras de preparar bebidas feitas a base de mandioca. Além do cauim obtido através da mastigação, muito conhecido, ele cita outras duas variedades. E fornece a receita: a mandioca era assada até ficar quase queimada, pilada até virar pó, e, em seguida, acrescentava-se água, fervia-se e deixava-se a mistura descansar por três ou quatro dias. A outra variedade era também à base do pó da mandioca torrada, misturado à água, mas sem ferver ou descansar. O resultado era “muito parecido com ale (tipo de cerveja comum no norte europeu), que é usada da Inglaterra, e da mesma cor e sabor”, afirma o corsário inglês. Muitos cronistas demonstraram repugnância ao beber o cauim indígena. Mas os ingleses encontraram nele os mesmos encantos da cerveja de sua terra natal.


.Fonte: Sheila Moura Hue > revistadehistoria
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