A China a Todo Vapor...






Nos últimos dias, soubemos que a China cresceu 10,3% em 2010. Segundo o vice-presidente da muito influente Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês), esse crescimento eleva o Produto Interno Bruto (PIB) do país a cerca de US$ 6 trilhões, um nível superior ao que eu esperava agora, e um montante que é hoje confortavelmente superior ao do Japão.

Há muitas maneiras de pensar sobre a pura magnitude dessa ascensão da China, toda ela bastante descomunal. E não custa assinalar que à medida que o yuan se valoriza, o valor em dólares da economia chinesa aumenta ainda mais.

Com o PIB em torno de US$ 6 trilhões, a China é agora mais de duas vezes maior que a França ou a Grã-Bretanha em dólares americanos. Em 2001, quando sonhei com a sigla Bric, o PIB chinês estava abaixo de US$ 1,5 trilhão, menor que o da França ou da Grã-Bretanha. Eu sempre gosto de dizer que a China criou PIB equivalente em dólares de duas novas Grã-Bretanhas na última década. Com os US$ 6 trilhões atuais, ela seria hoje equivalente a três Grã-Bretanhas do tamanho de 2001. Ou a cerca de um terço dos Estados Unidos da época.

Com esse tamanho, se a China crescer em torno de 10% em termos de dólares neste ano - o que é altamente provável, uma estimativa dessas poderia ser alcançada sem nenhuma inflação, com 7% de crescimento real do PIB e uma valorização anual de 3% do yuan em relação ao dólar -, ela criará mais do que outra Indonésia ou Turquia. No consenso implícito de 15% de crescimento nominal em dólares, isso criará o equivalente a mais uma Holanda ou quase outra Coreia do Sul, ou mais da metade de uma Índia, metade de um Brasil ou de um Reino Unido. Impressionante por qualquer padrão. Na metade da década, a China, mesmo com taxas de crescimento mais mansas, estará confortavelmente adicionando mais de US$ 1 trilhão de dólares ao PIB global.

Persiste um número notavelmente grande de pessoas por aí que não têm consciência, não acredita ou acha que o histórico do consumo chinês é insustentável. Muitos dos verdadeiros céticos citam o relatório de dados do PIB que mostra que o consumo pessoal não vai além de 35% do PIB. A maioria dos verdadeiros especialistas em dados da China tende a duvidar de que o consumo seja de fato tão baixo, mas pelo bem da questão que pretendo defender, vamos supor que seja verdade. Mesmo que se aceite o percentual de 35%, isso se traduz num valor de US$ 2,1 trilhões.

Em 2001, supondo os mesmos 35%, o consumo seria em torno de US$ 490 bilhões. Na última década, portanto, o valor em dólares do consumo chinês aumentou cerca de US$ 1,6 trilhão. Isso, e estou supondo os números apresentados pelos mais pessimistas, representa cerca de 15% do nível atual do consumo americano. É também do tamanho aproximado de toda a economia indiana atual.

Consumo. Eu poderia invocar muitos argumentos para refutar os céticos sobre o consumo chinês. A razão porque o nível de consumo reportado parece ser uma parte relativamente pequena do PIB não é necessariamente porque o consumidor chinês é reprimido, cauteloso etc. É simplesmente porque outras partes do PIB cresceram ainda mais rapidamente na última década.

Basta olhar os números acima. Se o PIB chinês total cresceu US$ 4,5 trilhões na última década, e o consumo cresceu em torno de US$ 1,6 trilhão, isso significa que o restante da economia cresceu quase US$ 3 trilhões. Esse foi o poder das exportações e investimentos chineses, e é pouco provável que ele se repita no futuro.

Expansão menor. No futuro, será muito mais fácil haver um aumento do consumo chinês como parte do PIB total. Primeiro, as exportações e investimentos não aumentarão tanto. Segundo, e em parte por causa disso, as autoridades estão empreendendo muitas políticas para estimular o consumo para uma proporção maior da população chinesa.

Uma maneira final de reconhecer o poder da China é relacionada ao assunto crucial de seu balanço de pagamentos externos. Os dados comerciais da China para o último mês de 2010 também foram reportados recentemente, e para o ano como um todo. A China registrou um superávit comercial em torno de US$ 184 bilhões. É importante assinalar que isso representa em torno de 3,8% do PIB. Há três anos, a cifra estava mais perto de 11%.

Olhando além da superfície, atenta-se melhor para os números das importações. Em 2010, as importações totais da China alcançaram US$ 1,359 trilhão. Isso representou um aumento de US$ 389 bilhões sobre 2009. Em um ano, a China importou mais que o valor total do PIB da África do Sul, ou cerca de um quatro do valor em dólar da Índia. Quem diz que a China cresce às expensas alheias? As importações chinesas foram cerca de 22% do PIB total, supondo um número de US$ 6 trilhões para o PIB. Os Estados Unidos terão importado em torno de US$ 2,3 trilhão em 2010, o que, como parte do PIB, representa um pouco menos, 15,7%. A China está destinada a se tornar uma importadora muito maior que os Estados Unidos mesmo antes de chegar perto de seu tamanho.

A China é simplesmente o caso econômico mais notável e importante em curso para seu 1,3 bilhão de habitantes, mas também para os demais 5 bilhões da população mundial. Os desdobramentos marginais de seu crescimento são cada vez mais importantes para todos nós. Nos próximos cinco anos, é provável que o crescimento do PIB chinês se desacelere um pouco, porque as autoridades se concentrarão mais na qualidade do crescimento que na pura quantidade.

Menos geleia hoje significará mais geleia amanhã, na medida em que a China tentará suprir suas necessidades ambientais, energéticas e de commodities, assim como perseguir políticas para melhorar a distribuição de renda e incentivar o consumo.

/ TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

PRESIDENTE DA GOLDMAN SACHS ASSET MANAGEMENT

Fonte: O Estadão - 23 Jan 2011

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